Concerto

REQUIEM OP. 23, "À MEMÓRIA DE CAMÕES"

de JOÃO DOMINGOS BOMTEMPO (1775-1842)

07 junho 2025 21h00
Sé Nova | Coimbra

Concerto Comentado por Alexandre Delgado 

Orquestra Clássica do Centro 
 
Sofia Marafona, soprano
Claudia Ribas, Mezzo-Soprano
Job Tomé, Barítono 
Marco Alves dos Santos, tenor.
Coro Art ‘ Amoris
 (Carla Pais, maestra do Coro)
 

 Maestro Sergio Alapont 

 
 
I) Introitus 
– Requiem æternam 
– Kyrie eleison 
– Christe eleison
 
II) Sequentia
– Dies Iræ: Allegro con fuoco
– Tuba mirum: Andante sostenuto 
– Judex ergo: Allegro moderato
– Quid sumo miser: Larghetto
– Juste judex: Allegro
– Ingemisco: Andante commodo
– Confutatis: Allegro spirituoso
– Lacrymosa: Moderato espressivo assai
– Donas eis requiem: Allegro vivace
 
III) Offertorium 
– Domine Jesu Christe 
– Rex gloriæ 
– Hostias et preces 
 
IV) Sanctus: Allegro maestoso assai
 
V) Benedictus: Larghetto – Allegro moderato
 
VI) Agnus Dei: Andante sostenuto – Allegro moderato – Allegro assai / Requiem æternam: Larghetto
 
 

JOÃO DOMINGOS BOMTEMPO

nos 250 anos do seu nascimento

nos 500 anos do nascimento de Camões

 

 

“Bomtempo encarnou pela primeira vez entre nós o estatuto do artista livre do século XIX, que não é servidor de ninguém e escreve segundo a sua inspiração. Correspondeu também a figura do compositor-intérprete virtuoso, uma das imagens típicas do romantismo.

Nascido em Lisboa a 28 de dezembro de 1775, João Domingos Bomtempo era filho de uma portuguesa e de um italiano, oboísta da Orquestra da Real Câmara, com quem aprendeu a tocar oboé. Frequentou o Seminário da Patriarcal, a mais importante escola de música da época, onde provavelmente foi aluno de João de Sousa Carvalho. Ingressou na Irmandade de Santa Cecília aos 14 anos e desempenhou, tal como o pai, o papel de oboísta da Orquestra da Real Câmara.

Exímio pianista, tinha 26 anos quando partiu para Paris em 1801. Aí conheceu Muzio Clementi e John Field, dois percursores do piano romântico, com os quais a vasta produção para piano de Bomtempo oferece pontos de contacto, sendo exemplo do virtuosismo brilhante do início do século XIX. Nas suas onze sonatas e outras obras para o instrumento, encontramos os avanços e recuos estilísticos típicos de uma época de transição, incluindo inovações da escrita pianística, devaneios pré-chopinianos e uma expressão pré-romântica que por vezes lembra Schubert.

Bomtempo atuou em muitas cidades francesas, sendo saudado pela crítica como um pianista fora de série e um compositor de mérito. Até 1810 apresentou em Paris quatro dos seus seis concertos para piano e orquestra, obras de grande virtuosismo que constituem um acervo único na música portuguesa dedicado ao instrumento que foi o veículo por excelência do movimento romântico.

A estreia da Sinfonia nº 1 e do Concerto nº 4 para piano e orquestra na Salle Olympique, a 15 de janeiro de 1810, suscitou comentários que dão a entender que tais obras se afiguravam inovadoras em Paris, cidade onde as sinfonias de Beethoven permaneciam desconhecidas. Não se sabe com quem Bomtempo estudou o idioma e a construção musical do classicismo vienense subjacentes à 1ª sinfonia, mas é de supor que foi através do estudo das obras de Haydn e Mozart que ele refinou a sua linguagem.

Nessa altura os reveses das tropas francesas na Península Ibérica tornaram desconfortável a sua situação e o compositor partiu para Londres, naquele que terá sido um dos momentos de mais franca simpatia anglo-portuguesa. A comunidade lusa era aí numerosa e os triunfos de Bomtempo puderam prosseguir como concertista e compositor. O seu amigo Clementi era diretor da editora musical que, na sequência da casa Leduc em Paris, publicou grande parte das suas obras. A alta sociedade abriu-lhe as portas e Lady Hamilton escolheu-o para professor da sua filha.

A pujança a vida musical inglesa — que, à falta de grandes compositores, tinha a mais antiga tradição de concertos orquestrais e de música de câmara abertos ao público na Europa — impressionou-o sem dúvida. Essa experiência, somada à que tivera em Paris, deu-lhe uma visão arejada dos novos imperativos musicais da época.

Entre 1814 e 1819 Bomtempo fez estadias acidentadas em Lisboa e em Paris, sem encontrar condições para prosseguir a sua carreira. Data dessa época uma das suas melhores obras e uma obra-prima da música portuguesa: o Requiem à Memória de Camões, que coincidiu com a famosa edição monumental d’Os Lusíadas, editada pelo Morgado de Mateus em Paris em janeiro de 1817. A par dos dois requiem de Cherubini, é um dos poucos exemplos significativos do género que medeiam entre os de Mozart e de Berlioz. Para Portugal, a importância desta obra está no facto de marcar a grande ruptura, no domínio da música religiosa, com a influência italiana. Tal como nas sinfonias, Bomtempo seguiu o exemplo dos clássicos vienenses, sendo evidente a influência do Requiem de Mozart. Há uma elevação de estilo que rompe com a ópera: num século XIX tão atribulado como o português, é redentor encontrar uma música de tão elevada qualidade. Estreada em Paris e em Londres em 1819, a obra teve a sua estreia portuguesa a 18 de outubro de 1821 na igreja de São Domingos, em Lisboa, numa cerimónia em memória do general Gomes Freire e dos outros mártires da liberdade supliciados em 1817.

A Revolução Liberal de 1820 ditou o regresso de Bomtempo a Portugal e a vitória temporária da causa liberal tornou-o benquisto do poder político, dando azo àquela que podia ter sido a grande viragem do meio musical de Lisboa: a criação de uma sociedade de concertos à semelhança da que existia em Londres. Conseguindo o apoio de uma larga camada da nobreza — em que se destaca o Barão de Quintela, futuro Conde de Farrobo — Bomtempo criou a Sociedade Filarmónica, que promoveu temporadas de concertos orquestrais e de câmara, vendidos por assinaturas e abertos ao público, entre 1822 e 1828. Num total de 69 concertos, então se ouviram entre nós, além de obras de Bomtempo, sinfonias de Haydn, Mozart e Beethoven. Nos seus seis atribulados anos de existência, a Sociedade Filarmónica congregou os esforços dos melhores músicos amadores e profissionais de Lisboa e, apesar das sucessivas interrupções a que foi obrigada, fez muito pela criação de um público musicalmente cultivado até ao golpe fatal desfechado pelo retorno do absolutismo com a instauração de D. Miguel no trono.

Essa sociedade marcou uma breve mas significativa aposta na música instrumental, ao fim de dois séculos de predomínio vocal. A ela podemos associar os dois quintetos para piano e cordas de Bomtempo (só um dos quais subsiste completo) e um septeto para piano e sopros, obras que estão a meio caminho entre o mundo clássico e mundo romântico.

A 2ª Sinfonia de Bomtempo foi provavelmente escrita em Lisboa em 1822 e é dedicada à Sociedade Filarmónica, tendo sido estreada nesse ano. Mais extensa que a sinfonia anterior, segue igualmente moldes clássicos, com um cunho mais pré-romântico e um calor mais latino.

A hipótese de existirem outras sinfonias de Bomtempo é um dos grandes mistérios da música portuguesa. Ernesto Vieira, primeiro biógrafo de Bomtempo, escreveu no Dicionário Biográfico de Músicos Portugueses que, entre o conjunto das “composições inéditas, cujos autógrafos existem na posse do sr. Fernando Bomtempo” [filho do compositor] figuram “seis grandes sinfonias para orquestra”. Mas além das duas primeiras sinfonias, só se conhece uma “Sinfonia para uma grande orquestra” num só andamento, em dó menor e com um interessante fôlego beethoveniano. As outras sinfonias — eventualmente posteriores à época da Sociedade Filarmónica, uma vez que não há notícia da sua execução nesses concertos — não constam da coleção de obras impressas e manuscritas de Bomtempo que se conserva na Biblioteca Nacional.

Após a extinção da Sociedade Filarmónica, deu-se o facto insólito e romanesco de Bomtempo ser obrigado a refugiar-se no consulado da Rússia, onde permaneceu como prisioneiro político durante a vigência do regime miguelista (1828-1834).

Após o regresso de D. Pedro IV, durante o reinado de D. Maria II Bomtempo recuperou a liberdade e pôde dar um contributo fundamental para a “regeneração” musical portuguesa, desta vez ao nível do ensino. O Conservatório de Música, que teve Bomtempo como primeiro diretor, foi criado por decreto em 1835 e veio substituir com vantagem o extinto Seminário da Patriarcal, seguindo o movimento europeu de laicização do ensino. Inicialmente anexo à Casa Pia, foi integrado no Conservatório Geral de Arte Dramática idealizado por Almeida Garrett, instalando-se em 1837 no edifício da Rua dos Caetanos. Além de renovar os corpos docentes e os métodos de ensino, Bomtempo escreveu obras teóricas e práticas para as classes de piano e de composição.

Apesar do seu arranque auspicioso, o Conservatório Nacional não pôde desempenhar plenamente o seu papel, devido a reveses políticos e cortes orçamentais, com a agravante de que Bomtempo faleceu a 18 de agosto de 1842, sem ter continuadores à altura.

Exemplo do efeito redutor que o nosso meio opera sobre os grandes artistas, Bomtempo era alguém voltado por natureza para as mais altas criações e aspirava a colocar-nos a par da evolução musical da sua época. Mas passou grande parte da sua vida como exilado, obtendo no estrangeiro o reconhecimento que só no fim da vida Portugal lhe concedeu.”

 

Alexandre Delgado

Integrado nas comemorações