Concerto 20/10/ 2018 🗓

ESTREIA  da obra – INEZ de Rui Soares da Costa

REQUIEM – Gabriel Fauré

Orquestra Clássica do Centro

Coral de Letras da Universidade do Porto

maestro do coro José Luís Borges Coelho

 

Marina Pacheco, soprano

José Corvelo, barítono

Direção musical  Jan Wierzba

INEZ  DE CASTRO – Camões cantou os acontecimentos da tragédia de Inez de Castro nos Lusíadas, com o génio que se lhe reconhece, deixando-nos um texto poético tão belo quanto trágico e real.

Foi já em 2009 que o meu saudoso amigo Maestro Manuel Ivo Cruz, a quem postumamente a obra é dedicada, me tentou, primeiro, a escrever uma ópera, e perante a minha reticência, insistiu em que pelo menos pusesse em Música aqueles acontecimentos que tanto o fascinaram usando o texto que ele apreciava. Durante quase 4 anos se prolongou, sem pressas, a gestação e criação da obra, e assim hoje apresento uma nova versão nobre, trágica, que reflecte a minha visão e cultura dos acontecimentos passados, cantados por Camões.

A obra tem cerca de 30 minutos e a distribuição pelos vários grupos foi objecto de uma análise cuidada e prolongada dos textos, tendo daí resultado a opção do uso de alguns instrumentos antigos com sonoridades novas para a maior parte do público actual. O uso de um coro masculino “a capella” como que ressuscitou o coro da tragédia grega. A sonoridade etérea de um coro feminino acompanhado por um grupo de menos de 30 instrumentistas, providenciou assim um equilíbrio de massas sonoras adequado a uma intelegibilidade do texto camoniano, que vai sendo entregue por um barítono-narrador, tipo de voz que mais me pareceu apropriado a uma tragédia, nobre, digno e não patético. Por último, colocado no centro da obra, tal como Camões quis, o único monólogo, a única vez em que as palavras são postas na boca de quem as diz e não comunicadas por outrem, o solo de Inez, entregue a uma soprano como que para que brilhe acima de todos os outros intervenientes.

Foram usados leitmotivs para dar unidade e coerência à obra, podendo realçar as duas quartas perfeitas sobrepostas e o intervalo de segunda ascendente e descendente à volta de uma nota como sinal de indefinição e de instabilidade. Além disso, a harmonização teve em conta o tonal e modal, com uma nítida tendência para motivos descendentes, procurando criar alguma angústia e tristeza no ouvinte, sem desvarios ou estrépito, mas com o belo na mente.

De realçar que o texto camoniano é respeitado na íntegra sendo apenas usados, muito esparsamente, a sobreposição de palavras e a repetição – que apenas ocorre quando o coro masculino, canta o nome PEDRO uma dúzia de vezes, como se Inez o chamasse em seu auxílio depois de morta.

A obra acaba, com uma secção orquestral, qual manifesto de amor, e conclui com o coro feminino cantando os temas dos tempos de felicidade, alterados na ordem e nas palavras, agora cruas, da descrição da Inez morta, e a alusão à Fonte das Lágrimas, junto à qual, segundo a lenda, se terão passado os trágicos acontecimentos cantados nesta obra. Rui Soares da Costa

O requiem é uma celebração fúnebre do ritual cristão, consistindo no canto de passagens bíblicas e orações referentes à entrada dos mortos nos céus. Organista e mestre de coro, Fauré conhecia profundamente o contexto religioso parisiense, e o Requiem Op. 48 é a sua proposta para a renovação da música litúrgica que se praticava em França no final do século XIX. Nesta obra apostou numa grande simplicidade de escrita, numa época em que se compunha preferencialmente para orquestras de grandes dimensões e com enorme influência estética oriunda do mundo Germânico. Em inúmeros momentos dispensou a intervenção dos violinos e dos sopros a fim de favorecer uma atmosfera intimista. É sem dúvida um dos requiems mais originais, dado o contexto e época de escrita, da História da Música. Estreado em 1888, na ocasião com somente cinco andamentos, mais tarde Fauré acrescentou-lhe outros dois. No que respeita às palavras, os textos bíblicos foram tomados com grande liberdade, alguns deles reduzidos, e outros anulados, não correspondendo ao formato convencional. Entre o Kyrie e o Ofertório é omitida uma sequência, acontecendo o mesmo com o Benedictus, após o Sanctus. Por sua vez, a Comunhão é agregada ao Agnus Dei. Do primeiro ao último compasso apresentando um ambiente contemplativo e soleníssimo, é audível alguma influência melódcia do cantochão, dialogando com alguma preferência estilística do próprio Fauré pelas tendências impressionistas da época. Jan Wierzba

Bilhetes: Convento São Francisco Coimbra 

 

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